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Zé Renato - Breves Minutos (MP,B Discos / Universal Music)     


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Como cantor, meio que sem querer, ou melhor, sejamos precisos, por gosto mesmo, por amá-la como poucos, Zé Renato sempre contou um pouco da história da música popular brasileira. Reviveu a Era de Ouro ao visitar Sílvio Caldas ("Arranha-céu" e "Sílvio Caldas 90 anos - Ao vivo"). Foi aos fundamentos do samba através de Zé Keti ("Natural do Rio de Janeiro"), do pop através da Jovem Guarda ("É tempo de amar"), e da própria essência da música brasileira ao revisitar nossos dois maiores compositores, Noel Rosa e Chico Buarque ("Filosofia"). Isso para não falar de todo o espectro musical abarcado pelo Boca Livre, grupo vocal que fundou em 1978 e até hoje integra, que vai de Villa-Lobos, Tom Jobim e Milton Nascimento a todo e qualquer tipo de música brasileira que valha a pena nessas últimas décadas.

Como compositor, com as influências marcantes de um Milton, um Edu Lobo, um Tom Jobim, um Elton Medeiros - todos ídolos com quem trabalhou - Zé Renato conquistou também uma voz própria, realizou uma obra vasta, sofisticada, permeada por clássicos da moderna MPB, como "Toada", "Quem tem a viola", "Anima", entre outras.

Por isso, apesar da forte veia autoral e por fazer discos solo desde 1982, é espantoso que o primeiro trabalho integralmente autoral de Zé Renato seja este "Breves minutos". E, como que para não perder o vício de amar profundamente a música popular brasileira e suas influências, não é que mesmo nestes "Breves minutos" Zé Renato resume, à sua maneira muito própria e nitidamente autoral, muito do que vem acontecendo dos anos 1970 para cá. De certo modo, em "Breves minutos" há toda uma história da música brasileira.

E a história começa logo na faixa abertura, "Sweet Gil", música sem letra na qual Zé faz todas as vozes como se fosse um solitário Boca Livre. O tema, jazzístico, é uma homenagem ao maestro canadense Gil Evans, que Zé cansou de ver e ouvir à frente de sua orquestra, nos anos 80 em Nova York. Gil Evans, com seu jeito de orquestrar, escrevendo para naipe de sopros como se fossem cordas, influenciou muito a música brasileira dos anos 60 para cá, sobretudo mestres de Zé, como Dori Caymmi e Edu Lobo. Em contrapartida, foi muito influenciado pela música brasileira da bossa nova para cá, como fica claro nos discos que gravou com Miles Davis, sobretudo "Quiet nights". Agora, por Zé Renato, a música brasileira retribui a homenagem.

"Um abraço no Japão", parceria com Joyce, é uma espécie de canção-manifesto do disco. Música igualmente inspirada num jazzista que influenciou e foi influenciado pela música brasileira, Wayne Shorter (sobretudo a sonoridade do LP "Native dancer", que teve participação não por acaso de Milton Nascimento). Na letra, não se pode ser mais claro: "Que venha agora toda a música brasileira/Levar nossa energia pra aquela terra inteira". É dedicado ao Japão, que tanto ama a música brasileira, sofrido pelas catástrofes naturais, mas pode ser dedicado ao mundo inteiro, onde nossa música está definitivamente espalhada.

Em "La luna", a inspiração da linda melodia é outro compositor fundamental para Zé Renato e para todos os músicos brasileiros, Moacir Santos, não por acaso alguém que tanto influenciou o jazz e tanto foi influenciado por ele. A letra, de Ivan Santos, celebra a fraternidade universal, tema que a música brasileira tão bem representa.

"Imbora", parceria com Pedro Luís, é um baião moderno. Quem ouvir ecos de Edu Lobo e Hermeto Pascoal terá percebido a exata intenção da canção. Já "Tá legal", outra parceria com Joyce, é um samba, samba torto à Toninho Horta, o mestre da moderna harmonia brasileira para guitarra. O próprio Toninho, aliás, participa da gravação mais uma vez entortando e encantando, em comentários estonteantes com sua guitarra.

"A cor do anel de Isabel" é a faixa mais pop do disco, não por acaso em parceria com o pernambucano Lula Queiroga. Zé reconhece uma influência de Jorge Benjor. Dé Palmeira, que produziu a faixa (e que produziu o disco de Zé Renato dedicado à Jovem Guarda), reconheceu traços da música negra dos anos 1970, como da dupla baiana Os Ticoãs, de todo modo próxima da matriz afro-brasileira de Jorge Ben.

E para contar este "capítulo" da história da música brasileira segundo Zé Renato, o disco dá uma pausa da instrumentação jazzístico-bossanovística que o caracteriza para uma pegada mais pop. Em todo o disco, o que predomina é a bateria de Tutty Moreno, tão jazzística e brasileira, o baixo de Romulo Gomes, o vibrafone de Artur Dutra, os sopros de Zé Nogueira e o violão do próprio Zé Renato, num disco de banda, quase todo gravado ao vivo no estúdio.

Já "Na trilha do meu sonho", outra parceria com Pedro Luís, Zé Renato exibe outra influência marcante em sua música (e na de toda canção brasileira contemporânea), a da grande canção americana do século XX, com direito até ao recitativo (a introdução letrada, introduzindo também a história da canção).

"De onde é que vem a saudade", canção melodicamente tão típica de Zé Renato, mais uma vez em parceria com Joyce, revela em seus compassos irregulares uma das maiores influências do compositor (e de toda a sua geração): Egberto Gismonti. Zé lembra que viu cinco vezes o espetáculo "Água e vinho", de Egberto no antigo Teatro Opinião. Foi tão marcante que a influência aparecer volta e meia em sua composição.

Em "Desarmonia" a influência não poderia ser mais cristalina, a bossa nova, origem mesma de toda essa corrente da canção moderna brasileira. Na letra, Joyce torna essa influência estética ainda mais explícita, citando sobretudo Vinicius de Moraes ("Mas disse o poeta/E o poeta ninguém contradiz/É melhor viver do que ser feliz") e muitos de seus versos de amor. Como Zé gosta de brincar, e no caso cheio de verdade, "Desarmonia" é uma bossa nova que todo mundo reconhece como bossa nova, e um exemplar típico (e lindo, e instigante) do gênero.

"Porque choro", tema instrumental remete a uma influência menos conhecida em Zé Renato, que é a do choro. Nos anos 1970, Zé fez parte do grupo Éramos Felizes, contemporâneo do ressurgimento do choro naquela década. Aqui, num tema conduzido pelo saxofone chorístico e moderno de Zé Nogueira, ele mostra como o velho gênero de Pixinguinha e Jacob do Bandolim está entranhado em sua música.

Do choro carioca, a história de Zé Renato passa para a folia mineira. "Vai tambor" é um tributo não só às folias, mas a toda a música mineira que tanto influenciou sua música e a do Boca Livre. Não por acaso, trata-se de uma parceria com Juca Filho, com quem faz canções desde o início da carreira. Ecos de um Tavinho Moura, um Beto Guedes não serão estranhos nessa faixa.

"Água, pra quê?", que faz parte de um projeto maior, um CD infantil sobre as águas do planeta, entra aqui nesta breve (e tão ampla) história da música popular brasileira como uma canção ecológica, daquelas que Tom Jobim começou a fazer há quase 50 anos e que encontrou no Boca Livre e em Zé Renato seguidores fiéis. Assim, pensando no futuro acaba essa história.

E isso tudo meio sem querer, ou melhor, para sermos precisos, por puro amor pela música brasileira.

Hugo Sukman
Outubro/2011



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