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Release
por Bernardo Araujo
"Verso e frente, eu sou mesmo assim", canta Isabella Taviani na quase-faixa-título de seu quinto disco, o independente "Eu Raio X" (quase porque a música dispensa o "eu" – Isabella nunca foi muito de egotrips, mesmo). Nada mais justo: tudo o que estabeleceu a sólida carreira da cantora carioca está lá: a voz límpida, o violão simples e preciso, as melodias ora lineares, ora surpreendentes, o amor às vezes cínico, em outras, rasgado... E mais, claro, pois Isabella sabe que para a frente é que se anda. "Sempre odiei me repetir", diz ela, usando o verbo "odiar" de forma tão casual que ele parece ter outro significado.
De fato, "Eu Raio X", produzido por André Vasconcellos e gravado rapidamente entre novembro de 2011 e janeiro de 2012, consegue o equilíbrio que muitos artistas buscam: mantém uma assinatura sólida, sem jamais deixar de olhar para os lados. Registrado em tão pouco tempo e com um som tão convicto, o disco certamente estava sendo planejado há muito tempo.
"Na verdade, meu plano era gravar um CD de versões dos Carpenters", confessa a cantora, uma sílfide com 15kg a menos e os cabelos raspados à máquina 3. "Mas aí conheci a Myllena, estabelecemos uma parceria, e as músicas começaram a sair". As duas assinam quatro músicas do disco, e Myllena – cantora mineira de perfil mais roqueiro, que tem sua própria carreira --, sozinha, é a autora de "Raio X".
Com tanta inspiração, Isabella pegou o violão e começou a compor. "Gravando num esquema independente, o problema é meu, né?", diz, sempre direta.
"Norte" é a música que abre o disco, um violão ponteado por um slide e a voz característica da cantora, atingindo as notas com a serenidade de sempre, sobre uma base redonda de baixo e bateria – André Vasconcellos e Sérgio Mello, respectivamente, uma parceria que se repete por todo o disco.
"Minha cozinha é sensacional", admite ela, referindo-se à dupla de músicos, não aos equipamentos culinários que tem em casa. De fato, a solidez da dupla, que sabe economizar e esbanjar na medida perfeita, dá uma segurança para as melodias mais tortuosas do disco, como "A palavra errada", mais dançante, pontuada por guitarras (Rodrigo Nogueira), que vem em seguida. O passo adiante de Isabella fica mais evidente na venenosa "Encaixotei minha paz", composta em parceria com Myllena, baseada em uma levada hipnótica de violão (ela mesma, Myllena) e pandeiro (Marcos Suzano), logo reforçada pela guitarra da fera Junior Tostoi. Assim como o instrumental, a letra não poupa ninguém: "Meu pai de santo previu/ Cuidado com a falsidade/ Quem hoje é seu tesouro/ Pode amanhã levar o seu ouro". Para bater cabeça, em vários sentidos.
De volta à calma, "A canção que faltava" é uma típica balada tavianiana, daquelas que o público canta junto com gosto nos shows. "Contradição" já soa mais amarga, com uma batida tribal, duas guitarras (Nogueira e Marco Vasconcellos) e uma Isabella mais seca, cantando em uma região mais grave. "Pode dar em nada/ Pode dar em tudo/ Pode dar futuro/ Pode ser amor", diz um dos melhores refrãos do disco. No dia em que gravar um disco de rock, como admite fazer, Isabella pode, de repente, trilhar um caminho como esse. "Se eu pudesse, fotografaria de dentro para fora a melodia", canta ela em "Raio X", simples, precisa, com um violão dedilhado e voz, letra e melodia como atrações principais. À economia se seguem a grandiloquência e o peso da banda em "Deixa estar", uma interpretação emocionada ("Às vezes eu me patrulho, sou doce demais", critica-se a cantora) em que o alcance vocal de quem tem treinamento lírico é usado com naturalidade. Destaque para a luxuosa guitarra do mestre Torcuato Mariano. "Estrategist a" combina guitarra (Max Vianna) e piano (Marco Brito) em uma canção lamentosa, um adeus cínico: "Estrategista, meus parabéns/ Que golpe perfeito".
Em seu terço final, o disco dá um passeio pelo mundo. Um ukelele (Isabella, que dedilha o primo havaiano do cavaquinho, é da turma que pronuncia "uculelê", não custa informar) puxa a melodia delicada de "Roda gigante", quase uma cantiga, como deixa perceber o nome. Uma delícia. O violão flamenco de Pedro Braga conduz a voz arrastada da cantora em "Mulher sábia", faixa em que Isa menos economiza. Em todos os sentidos: nos vocais sem freio, interpretados até a alma (ou por ela), na levada sincopada, na letra desafiadora e no surpreendente refrão funk-com-guitarra do fim. Como dizia aquele locutor de futebol: assina que o gol é seu, Isabella! Um rápido pulo à Baladalândia, na suave e derramada "E se eu fosse te esperar?", enfeitada pelo acordeom de Alessandro Kramer, e chega-se à Irlanda (Escócia? Galícia?) com a levada celta da fabulosa fábula "A imperatriz e a princesa", que conta a história de amor entre as duas personagens, uma pérola com Myllena dividindo os vocais e direito a bandolim, viola caipir a, rabeca... Para acabar, festa na aldeia com o tema "Festa de casamento", de Pedro Braga, no mesmo saboroso clima celta.
Vilarejos distantes, caixotes, raio-X, ukelele... A música de Isabella Taviani nos leva longe, e o bom é que basta pressionar o play de novo para a viagem recomeçar.
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